quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Óculos lunares

Os meus óculos corrigem
Os olhos – consigo
Filtrar a desfocagem
Do cosmos mitigando os intervalos
Criados entre os buracos negros
que o espaço não consegue mostrar
se não através da verdade.
Mas o que prende a verdade?
A resposta vagueia
Como as sombras projectadas
Das cavernas informes
E os arautos replicam
A criação como género.
Ponho a verdade na ficção,
O espaço nos caminhos estivais
Cuja reserva perpetua
Um sonho ébrio.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Gare

Uma rapariga dançava
Na gare do metro…
Os phones retinham-lhe o silêncio
E os membros batiam as asas
Sopradas pela batida do compasso.
Livremente desenhavam
O pathos da polis,
E os seus espelhos retorcidos
Lhe delimitavam
Os passos sem derrubar
O equilíbrio ténue de quem
Passa pela continuidade.
Nela as cores, as linhas,
As sombras e a intervenção
Roçavam o finito movimento
De um poema em construção.

Muros Imprecisos

Sentada tomavas um raio de sol
Que se abria entre a fugaz morfologia
De um céu tosco ... carregado
E indeciso.
Teimavas no fixo horizonte
Onde a mente se movia na frugalidade
Sem deixar um rasto nem levitar.
Ao lado um outdoor branco macerado
Prendia um ponto de interrogação
Indiferente à pétala esquecida
Que dobrava a alma em ti encanecida.
Lavavas nas imensas imagens
Os olhos presentes
Apinhadas na borda da mesa.
Sorvias o tempo num trago demorado
Deixando a quietude florir,
Bela e delicada.
Por fim abriste a porta
Da noite ao abismo,
E ficaste ali e eu em ti.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O anjo

Ó tu que vens
E me esperas
Do lado de fora da estrada
Sem pressas, em silêncio.
Repara na aurora
Aturdida pela resiliência do sol
Como lobo solitário
Espreitando atroz
Para romper consternação.
Para que me queres nú?
Se a nudez é o rude
Que não quero de mim.
É deste cosmos que te alimentas?
Despe o teu hábil seio! Vem-me
Matar a sede!!!!!!!!!!!!!!!!!

Jangada

Hoje é sábado,
Do um mês de Novembro
… sem o frio
Que se lhe acalentaria.

Meti na mente
Construir um poema
Sobre o medo
Da jangada que empurramos.

É uma esteira imperceptível,
Cada dia vamos um pouco
rio abaixo…
sem nos apercebermos
do queda que se abeira.

Andamos entretidos
Emborcando felizes
Esta água de distracção
E corrosão…

E vamos rio abaixo
Na jangada da ilusão
E por onde passamos
Mais ânimo nos emprestam.

Espera

Também a primavera
Tem os seus raios de sol
Espraiados no limite
Da órbita da juventude
Da terra parida.

Dessa terra prenhe de luz
Aberta em fendas dispersas,
As gretas de orvalho silenciosas
Arvoram flores tumeficadas,
E a cabeça do Homem
Sobressai repousada sobre os ramos
Tenros das nuvens que passam
Sem sombras nem hesitações.

No lume verde os carneiros
Assaltam as ideias que passam
--- como devoram montanhas!!!

A manada espera sentada, como sempre,
Á espera de novo pastor
E o cão anuncia a chegada
de uma nova era.

Novamente Setembro

Era novamente Setembro
Estavas transida no novo carro
Coberto pelo aroma húmido

Dos teus lábios.
Vertias todo o húmus
Sem palavras assumidas
E brincávamos com o ronronar
Do motor que nos levava

E trazia sempre no mesmo vagar.
O belo vincava os teus
Olhos vivos, sede e natureza.
A floresta era a força felina que os unia,
E abria a estrada para o cimo

Da montanha.
Como tu querias lá chegar!
Deste-me o acelerar do tempo
E chegamos os dois

Entrelaçados na mesma amplitude.
O verbo tornou-se fútil
Como a noite de estio
Sem ralos, sem grilos
--- só metamorfoses do eu,
Fragmentado pelo esvair
Do espectro do sol,

Rouçando as asas na penumbra.

Como era já tarde!,
Nessa tarde de Setembro.