sábado, 14 de fevereiro de 2015

Amanhã?

O que é o amanhã?
Novo canto?
Ou o azul cálido
Aturdido na tormenta?
Prefiro a repetição
Que sobe em espiral
E nos leva a um ponto
Que não tem retorno.
Esse caminho
Lamenta os pés
Decalcados e lavados
Pela claridade ambígua.
A sereia está lá…
O silvo da víbora também.
Só o teu rio
De águas revoltas
Ainda não tem
Mar nem maré.

O pelicano

O azul que verte
Da tua varanda
Tem destino: o mar.

No cimo um menino
Manejava
Um grande pelicano De papel.
O vento puxou-o,
Firmou o fio.
O pelicano bateu asas
E o menino segui-o.
Os dois mudaram
A realidade,
Tiveram uma lua,
Um universo
Unindo as mãos
Do velho tempo.

O azul que verte
Da tua varanda
Tem destino: o mar.

Pós-moderno

Não importa o belo!
As ovelhas descem a serra
Convencidas dos pastos
Pós-modernos, debitados
Pela internet
E pelas estradas da informação.
Lambem assumidamente
Esse naco de pão,
Expelindo vapores
Carburantes.

Sentem-se simétricas
Na diagonal das estradas
E planam paralelas
Na quietude da auto-satisfação.

Os lobos espreitam-nas
Carregados de sudários
Nessas longas entranhas
Que nunca desaparecem
Nem apreciam.

Balanço

Fechei para balanço.
Dias incorridos – 365
Pequenos almoços – 365 menos ?
Almoços e Jantares – 730
Dormidas – 365
Mal dormidas – 180
Sonhos:?
Desilusões: ? muitos
Matérias orgânica:?
E inorgânica:?
Oxigénio consumido: ?
E impurezas expelidas:?
Dores de cabeça:?
Horas felizes:?
E infelizes:?
Acessos de angústia:?
E o prazer:…?
A convivência: ?
A conivência:?
As rupturas: ?
A amizade, Kgs, Litros, Kms…
Viagens pela terra?
E pelo mar:?
Também quis chegar à Lua:?
E a rua:…? E as avenidas:?
As cidades:? As aldeias:?
E as pessoas que conheci:?
Outras que evitei:?
A música, sim a música:?
Erudita, popular, etnográfica…
Fechei para balanço,
365 Dias incorridos.

Poema sujo

Tens a face
Com sangue…
Na lâmina gotejam
Lágrimas de perversão…
E um ódio de desconsolo
Egocêntrico.
Rasgaste os muros
Que ligam Berlim
A Lisboa.
As tuas horas felizes
Exasperam
Em acordes mutilados.
Só reparas no ponto
Dessa espiral concêntrica
Que te puxa,
Não resistes.
Tens a face
Com sangue negro,
As mãos descarnadas
Que deslizam
E não te seguram.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Encolhimento

O médico comunicou
Que tinha de encolher.
Sim! Leste?! “Encolher”!
Mas como se encolhe?

O receituário foi
Dormir de pernas para o ar!

Lá dormi em conformidade.

Na manhã seguinte
Acordei com uma
Montanha de palavras
No chão…
Sim, no chão!

E não conseguia falar!

Os olhos
Também não os encontrei…
Talvez estivessem
Dentro dos sapatos caídos.

Estava de pernas no ar
E vazio por dentro.

As pernas ofereci-as
De inutilidade.

Ficou o corpo
Suspenso pelos braços…

O médico comunicou-me então
Que havia encolhido.

Entrevista de Z.

Voltei a escrever
Como um pintor
Que se abstrai
E coloca pontos
Num espaço vazio.

As casas, as ruas,
As pessoas, as relações,
São traços de poesia
Por vezes, cruéis e rudes,
Outras tantas vulgares.

Fujo dessa realidade
Diversa,
Interessa-me a irrealidade,
E o espaço que está
Para lá do entendimento,
Esse é o meu lugar.
A não pode buscar B.
B foge de A num infinito
Processo labiríntico
De insubordinação.
O terreno aliena.
A poesia escreve
Sobre rupturas.