segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Encolhimento

O médico comunicou
Que tinha de encolher.
Sim! Leste?! “Encolher”!
Mas como se encolhe?

O receituário foi
Dormir de pernas para o ar!

Lá dormi em conformidade.

Na manhã seguinte
Acordei com uma
Montanha de palavras
No chão…
Sim, no chão!

E não conseguia falar!

Os olhos
Também não os encontrei…
Talvez estivessem
Dentro dos sapatos caídos.

Estava de pernas no ar
E vazio por dentro.

As pernas ofereci-as
De inutilidade.

Ficou o corpo
Suspenso pelos braços…

O médico comunicou-me então
Que havia encolhido.

Entrevista de Z.

Voltei a escrever
Como um pintor
Que se abstrai
E coloca pontos
Num espaço vazio.

As casas, as ruas,
As pessoas, as relações,
São traços de poesia
Por vezes, cruéis e rudes,
Outras tantas vulgares.

Fujo dessa realidade
Diversa,
Interessa-me a irrealidade,
E o espaço que está
Para lá do entendimento,
Esse é o meu lugar.
A não pode buscar B.
B foge de A num infinito
Processo labiríntico
De insubordinação.
O terreno aliena.
A poesia escreve
Sobre rupturas.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Contemplação

Deitei o cigarro
No cinzeiro vazio
E esperei pelo tempo,
O tempo
Que o consumia…

Lembrei-me de M.
Adormecida nua
Sob a minha contemplação.
Pensei na luz
Reflectida sobre o seu corpo inerte,
E nas sombras afagadas
Que sorviam o momento.

Um corpo esbelto, tranquilo…
Mantido pela fragilidade
Do sopro da respiração.

Levadas

O espaço está quente!
Todo o devir
Se lhe submete.

Virgens dengosas
Abrem-lhe a doçura
Da porta da eternidade,
E rebentam a veia
Do continuo sopro
Do ser.

Nascerão invernos
Cavernosos, primaveras
Diletantes…
As mágoas serão
Levadas de rio,
E os juncos cueiros
Que os outros tempos
Lavraram…

Cores de papel

Sonhei
Com cores em catadupa.
Branco
Vermelho
Azul
Preto
(…)
Deliravam embevecidas
E clamavam qual a mais bela?
Argumento de brilho!
Argumento de intensidade!
Meticulosa vibração,
Frieza, adulação…
Nesse debate
Descuidaram-se
Tombaram todas num balde.
Nasceu um novo
Ser, vazio de racionalidade,
Carregado de palavras,
Tons, propulsões,
Gritos, histerias…

Até o camião do lixo chegar!

Bréu encravado

No breu
Flui a relva pedestre.
Camaras de arestas
Insuflam o viscoso traste
Que agoira o nascer
Do dia.

Bate as asas meretrizes
Em sónicas pulsões
Cujos relevos
Adormecem a cândida
Aurora.

Refulge repuxos
De águas cálidas
Cujo alcance demora
A preencher o chão
Plano e incauto.

Na esteira
Estende-se o manifesto:
Há dias assim!

domingo, 25 de janeiro de 2015

Poema Luz

Sento-me sobre este P.
É anónimo… não reclama!
Sinto a face fria
E a humidade a retocar-me
A pele.

Um melro poisa
Num medronheiro…
Ao lado de P.
Contempla-me incógnito.
Hesita! Receoso…

Mexo os braços
Como uma dança
Sorvedora de vento.
O M. estranha mas avança.

Nos dedos crescem-me folhas,
Flores e frutos vermelhos.
M. perde o medo
E nidifica os meus olhos.