domingo, 25 de janeiro de 2015

Amoras leitosas

A árvore dourada
De partículas mansas
Surge boreal
Nas mãos invisuais
Do mágico…
As amoras leitosas
Encrustam-lhe a pele enjeitada.
Deambula sendas
Em suavizadas montanhas
Cujos contornos
Dilatam-nos
Na profusão do sensível.

Oiçamos o mágico!
Mensagens truncadas,
Trovões, brechas,
Aluviões, loucos…
Essência? Frugalidade?
O azul tinge a face
Da virgem.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Hino à Solidão

Menina que estás á janela
No décimo primeiro andar
Escuta a solidão por ela
Com toque de banda a passar

Desencosta o rosto à vidraça
Desata o sonho à ilusão
Vem comigo andar na praça
Vem comigo dá-me a mão.

Tu que resistes nessa torre
Com uma ameia de tristeza
Sentes mais um dia que morre
No espelho que gela a beleza

Porquê tanta espera e demora
Em meios-termos desencontrados.
A água por quem o tempo chora
Lava os teus desgostos passados.

Aqui em baixo à tua espera
Neste banco de onde te fito
Trago-te um bouquet de quimera
E um mar de amor infinito.

O vento que sopra desse mar
Fere as mágoas e marés
Levanta amarras sem voltar
Ondas contra as tuas galés.

Menina que estás á janela
No décimo primeiro andar
Escuta a solidão por ela
Sem que me deixes consolar.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Dispositivo #5#

Tudo ruiu à tua passagem!
Só o gato miava
Continuamente à janela
Do paraíso!
E sobre o rabo enroscado
A serpente
Mitigava
A amora desprovida
De fado.

Tudo ruiu à tua passagem!

Dia Positivo

Submergi na sapiente
Água crepitada
No leito ermo
De um riacho
Que se desprende naturalmente
Do lado nascente
Da serra que me arvora.
Límpida! Esbelta!
Meu corpo profano
Deleitava-se nesse pueril
Perfume, de verde dissolvido
E de ocre que refulge
Da noite que lambe
A lua crua.
Oh sangue da natureza!
Choro perpétuo das rochas,
Gemido em tímido êxtase
Dessas entranhas
Que parem os mistérios
Cujo sensível não alcança,
Mas contempla.
Devoto, o meu eu
Redopiava como um esquife
Numa incontrolável
Volúpia.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Dispositivo #4#

O homem de aço
Escuda-se na presença
Do muro escuso
Tornado imóvel
No campo da negação.
Abriga a vítima
Dos corvos gigantes,
E espera que o tempo
Seja acontecimento.

Os seus abutres selvagens
Nidificam-lhe nas órbitas
Escuras e sobre as densas
Nuvens cegas de letargia
Partem náufragos do desejo
Em cujo regaço as flores
Pálidas tomam por luz
A ausência.

Lolita tem um elo
Plantado no cadafalso
Desse céu de orvalho
Gemido… deita-se
No pasto da noite
Após deambular
Pelas avenidas chocadas
Sobre as torres de betão
E as árvores prateadas…

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dispositivo#3#

Gosto da cor,
Garrida de preferência.
A jactância do preto
E branco formam
Distâncias e perfeições
A que não aspiro…
Sou um comum
Ciente do comum.
A cor
Transmite-me vida,
Luz
Perfume
Jardim
Ilhas expostas à inclusão
Onde todas os matizes
São pontos de partida.
Gosta da cor,
Viva de preferência,
Da voz que se levanta
Sobre o silêncio
Das manadas
Enquistadas
Pela indolência
E pelo sono
Dos corpos retidos
De movimentos.

Bebo da espuma
A diversidade
Num trago glacial
E volto como
Se a manhã fosse
Eterna.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dispositivo #2#

Apraz-me o gesto da eternidade
No rosto lívido que entra na caverna
Do tempo… Dissolvido o humano,
A manhã fresca sopra como
Uma leve brisa de latitudes
Para lá das sensoriais
Vozes. Tudo é natureza,
Tudo é dissolvido,
Amassado
E de novo dado à luz…
Pela grande Mãe.