sexta-feira, 14 de março de 2014

Sinais Indolores

Em verdade,
Em verdade vos digo:
“Todo o mar agitado
Tem um porto de abrigo”
Só ao alcance da perseverança.
A fé vence a montanha
Pelo cansaço,
Os cépticos morrem
Revoltados na indefinição,
E os temerosos
Submergem ao peso
Da âncora que os
Imobiliza.

As gaivotas são sinais
Mas nem todos sabem
Distinguir a ave plana
Da nuvem de tempestade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Realidade Inversa

O cubo do sonho…
Eu sonho! Sonho para
Lá do sonho…
Deslumbramento!
Desmembramento do objecto?
Que índias e brasis
O universo ainda fecha?
Quero abrir caminho,
Pintar a rota novamente
Cruzando creres atípicos.
Vasco do Gama! Hossana…
Pedro Alvares Cabral! Aleluia!!!!
Haverá alguma jangada
No rio da vontade encorada
Que contorne o plano
E encontre o desencontro?
Resta a matéria negra
Coberta por imensas grutas,
Morada de mostrengos
E de outros mitos
Que vão caindo sob
A telescópica luneta de Ciclope.
Eu sonho,
Mas além!,
No cubo perfeito.
Encontro plenitude no cruzamento
Das etéreas leis universais,
Umas feitas de pedra
Outras de ar.
Estendo os braços
De cabeça levantada
Sobre pés hirtos
E proclamo: “sonhai
Como eu sonho”.

domingo, 9 de março de 2014

A cigarra

Canta a cigarra
O canto final de verão
E lembra quem passa
“Piores dias virão”.

As asas trinadas
Tecem hinos a finados
No desmontar da festa
Recolhe a musa fados

Pasma-se com o saco vazio
De folguedo. Oh miséria!
Na lareia encosta o frio
Sumida em matéria.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A guitarra sem pressa

A guitarra
De cordas de lata
Solta gritos
E desata
Drama e garra
Circunscritos
Às cores
Dos barcos esquecidos.
Tremem-lhe as aspas
Em cadentes humores
Entumecidos.
Um delírio rasgado
Surpreende a harmonia
Do inerte nada
Na grande via
De lisura cortada
Por um velho arado.
A mão bate
No magna quente
E na volta
A torrente
Escolta
O seio escarlate.

A guitarra
De cordas de lata.
A lata das cordas
Da guitarra.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Estrada Aberta

Homens de cantar triste
Enterrai as lamúrias
Que impede a volúpia
Da noite demente
Sob os lençóis
Perversos da madrugada.
Deixai o pesar
Da natureza amarga,
Das árvores de braços vazios,
Dos cadáveres apodrecidos…
A sanidade há-de regenerar.

Cuidai de dar brilho
Ao sol e às flores amarelas
Que estrelecem o céu,
Ao canto dos pássaros coloridos
Que despertam o gozo,
Ao latir do lobo fortuito
Que revela a selva,
Ao galo distante
Que anuncia a nova ordem,
Ao gato que se enrosca
Na pacatez do tempo,
Ao corajoso que arvora
Mais um dia pleno.

Partam o vidro!... o vidro escuro!
A neblina andrajosa
Que ofusca o cais.

Não transformeis a terra alegre
Num lodaçal movediço e viscoso
Onde as cores e a música
Submerjam.

Entrai no mar
Que ele se abrirá!
Ousai desafiar a chuva
Para dela duvidardes!
Lançai-vos da janela,
Planareis de prazer!

Sonhai! Sonhai…
Que a obra nasce
Das vitórias.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Rascunho

As linhas cruzadas
Disparam touros
De hastes curvilíneas,
E do cachaço corpulento
Rústicos corvos negros
Cortam-lhe a carne mortiça.
As rosas soçobram-lhe da boca
Sobre troncos despidos
De lugares incertos,
E tomam-lhe por verde,
O verde dos campos cobertos
Pela monção de sóis semeados
Nas noites das luas de prata.
Nela os homens balançam
Como lobos dilacerados
Pelas hastes das linhas
Cruzadas dos touros
Negros de cachaço opulento.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Bolos & Afectos

Na pastelaria.
Teus olhos doces,
Terno o teu olhar,
Meigamente afagas a minha mão.
Brinco com a tua
Num laço que prometes ser longo.
Beberico café!... Sim, café!,
Numa réstia de chave.
Falas-me da tua semana,
Do teu emprego,
Dos desencontros…
Da rotina…
Da última notícia da tv…
Das tuas esperanças
E do horizonte
Que pretendes ser nosso.
Rodeias-me com todo o afecto,
Teus lábios brilham! Brilham de leveza!
Sussurras que me amas!,
Não vá a mesa do lado notar.
Dás-me um beijo indiscreto…
Troco outro mais profundo,
Simplesmente ousado.
Toda a planície
Tem uma lonjura
Que atravessa o cosmos
E fixa-se no infinitamente grande.
Sorris!

Saímos de mãos entrelaçadas
Para ver montras
E paisagens…

No fim da tarde, subimos
Ao último andar do shopping
Para aproveitar a penumbra
Da sala do cinema
Enquanto a tela
Passa um filme sem memória.